Que viagem: como foi escrever meu novo livro

Não quero só fazer stories falando sobre Que viagem*, meu novo livro (veja mais no instagram), então aqui vai um pouquinho sobre como foi escrever essa nova história pra mim.

Eu sou fã de música desde muito cedo, mas minha real paixão por fãs começou durante meu TCC em jornalismo. Eu decidi que iria escrever um livro-reportagem, mas não tinha ideia sobre o quê. Primeiro queria falar sobre o fenômeno das fanfics, porque a Fics de Bandas (uma comunidade antiga no Orkut) era uma das coisas mais legais em que eu já tinha me envolvido, mas acabou que não seria um bom tema. Depois eu quis falar sobre o meu mundo, sobre fãs de Simple Plan. E foi aí que eu comecei a ouvir histórias sobre fãs de qualquer outra banda, qualquer fã que tivesse uma história legal pra contar, e o meu TCC teve cinco histórias de fãs – entre os quais nenhum era fã de Simple Plan.

Eu fiquei tão apaixonada pelas histórias, escrevi, contei e recontei para quem não queria ler o livro todo, que levei a ideia de contar histórias de fãs para o meu trabalho. Na época eu tinha acabado de sair da assessoria de imprensa da Mix TV para um site novo do grupo, chamado MIXME. Nele criamos o quadro “Papo de Fã” e começamos a ir na casa das pessoas para gravar vídeos ouvindo as histórias delas.

Em 2016, quando o Simple Plan veio ao Brasil, decidimos escrever um livro coletando memórias que contassem a eles um pouco da importância que eles tinham na vida dos fãs brasileiros. E assim mais de 100 histórias foram escritas em inglês e depois traduzidas para que o pessoal daqui pudesse ter o livro também, não só a banda.

Ouvindo muitas e muitas histórias de fãs, por telefone, pela internet, pessoalmente, nas filas dos shows, em assuntos aleatórios em rodas de amigos com quem você não esperava conversar sobre isso (porque se você fizer o teste, sempre há um fã de alguma coisa em qualquer lugar que você esteja), eu fui percebendo um ponto muito comum em todos eles: sempre existe um motivo pra que esses fãs amem tanto alguma banda, algum artista ou alguma série (de TV, livros, filmes). E normalmente faltam palavras para que eles expliquem o motivo disso.

Foi assim que apareceu a história da Alice. Eu queria falar sobre uma garota que gostasse demais de um músico a ponto de sentir que ele a conhece e fala com ela, mesmo de longe. Porque normalmente é isso o que esses fãs sentem, e é esse o motivo que todo mundo acha bobo e “não sabe” explicar – porque às vezes explicar isso pra alguém que não sente o mesmo é meio constrangedor. Porque seu ídolo chegou em um momento que você precisava, ele diz coisas que fazem sentido só pra você. E o contexto da sua vida – e dele nela – é só você que entende.

Então eu escrevi um capítulo, li em voz alta pra minha melhor amiga, que é sempre minha primeira beta-reader, e a primeira reação muito espontânea dela foi: “Aaaaai, ela perdeu ele!”. E eu senti logo aí que tinha começado do jeito certo, que tinha mexido com alguma frustração que existia dentro dela e com a qual ela se identificava por qualquer motivo que fosse. Ela é uma fã como eu – possivelmente como você que está lendo este texto – e eu queria que essa identificação continuasse.

Ela não continuou. Eu escrevi um segundo capítulo muito ruim e fui largando mão, porque era só uma história de uma fã qualquer. Alice gostava muito de um cara e saía por aí viajando atrás dele, só porque sim. Aquele “motivo constrangedor”, aquilo que “ela não sabia explicar” não existia. E eu só percebi isso quando comecei a insistir na história às vésperas de o meu pai falecer. Literalmente.

Eu fiquei sabendo de um edital que liberaria uma verba para os ganhadores publicarem seus livros, e eu precisava enviar o projeto – se não me engano – até o início de novembro. Para isso eu precisava de 20 páginas escritas, e eu tinha umas 5, duas das quais eu já não gostava.

Então meu pai foi diagnosticado mais uma vez com leucemia. Ele tinha se recuperado da doença em 2014, depois de meses na UTI com intoxicação da quimioterapia, e justamente por isso não tinha conseguido chegar no transplante de medula. E dessa vez foi muito rápido, e a gente viu o organismo dele não reagindo nada bem. Em 5 dias ele estava na UTI, outros 5 dias talvez e ele estava entubado, e 4 dias depois eu pensei que precisava me distrair com alguma coisa.

Eu costumo riscar minha porta de vidro com canetas de lousa sempre que tenho que me planejar. Naquela madrugada eu me dei 3 dias de folga, que seriam sexta, sábado e domingo, e na segunda-feira eu começaria a escrever o livro. Alguns dias depois eu começaria a pensar nas contrapartidas, no financeiro, enfim, a escrever realmente o projeto para aprovação. Fiquei fazendo isso até as 4h da manhã e fui dormir. Às 8h minha mãe entrou no meu quarto e não precisou me contar, só precisou confirmar o que eu já sabia.

Então eu tinha o motivo da Alice, eu tinha as coisas que ela não sabia explicar. Eu tinha a alma do livro e três dias previamente reservados para mim mesma antes de começar a reescrevê-lo. Minha família estava aqui durante o fim de semana, e minhas melhores amigas, depois eu precisava desesperadamente me distrair. Me distrair, entender e pensar sobre o que tinha acontecido do meu jeito. Eu era a única pessoa do mundo que nunca iria perder meus pais, ou alguém tão próximo de mim a ponto de precisar reaprender a viver quando ele se fosse – assim como a maioria de nós provavelmente pensa até acontecer pela primeira vez. Agora tinha acontecido.

E, bom, às vezes a gente chora enquanto escreve um livro. Normalmente é bom a gente chorar, porque quer dizer que a gente se sente conectado com a personagem. Desta vez eu posso dizer que às vezes eu não chorei enquanto escrevia.

A história da Alice não é a minha história. Música country, na verdade, era o próximo estilo de música que eu estava planejando tentar fazer meu pai ouvir. Ele tinha me criado com Bee Gees, Phil Collins e o mais próximo do country era CCR – e eu não tinha pensado nisso até agora, mas foi provavelmente por isso que não citei CCR em nenhum momento do livro. Alice está passando pelo primeiro aniversário do acidente do pai dela, e eu ainda não fazia ideia de como seria viver tanto tempo longe do meu.

São narrativas bem diferentes, mas foi a minha forma de viver um pouco do meu luto. Eu tive um luto compartilhado que ela não teve, mas também existiu o meu luto solitário, pensando sobre isso no silêncio do meu quarto. E esse silêncio se transformou em 20 e tantos capítulos.

Esse é o tipo de livro que talvez não faça muito sentido se você não for um fã. Talvez as decisões que ela toma e as coisas que ela pensa sejam longas abobrinhas. Mas eu acho que vai fazer sentido se você já sentiu o que um fã sente; se você já se esgotou na fila de um show para estar perto do seu artista preferido, se você já abraçou o celular depois de ouvir uma música nova, se você tatuou alguma frase de música ou a escreveu nas paredes do seu quarto. Porque a verdade é que não importa se você não sabe explicar o que você sente pelo seu ídolo, o que importa é sentir – e que esse sentimento possa te ajudar em alguns maus momentos.

*Projeto FMC, Que viagem, projeto nº 014/FMC/2018, beneficiado pelo Fundo Municipal de Cultura

Deixe seu P.S.:

    Com certeza a criação de Alice veio preencher um pouco o nosso vazio. Sucesso ė o que desejamos. Beijos no coração!