Leia o começo de “Oliver Tray – O reino de Aladia”, de Wash Rodrigues

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Certo dia, encontro uma lontra falante

Se você se considera uma pessoa cética, talvez abra as portas para afastar um pouco desse ceticismo. Eu não acreditava que, em nosso mundo, pudesse existir nada de sobrenatural, como fantasmas, monstros e personagens das histórias de fantasia que encontrava nos livros em minha estante. Histórias que, tenho que admitir, faziam parte da minha rotina. Sempre tive o entendimento de que nada do que lia aconteceria de verdade, o que é o senso comum de qualquer ser humano. Até que me deparei, certo dia em meu quintal, com determinada criatura especial. E isso veio mudar minha vida de uma maneira que eu jamais poderia imaginar.

Meu nome é Oliver Tray. Tenho vinte anos e estou naquela transição de escola para o trabalho. Um cara normal e cheio de dúvidas quanto ao destino e ao que fazer, o que provavelmente é o normal de qualquer pessoa nessa idade.

Vivo em uma cidadezinha no interior de Minas Gerais, daquelas em que você encontra apenas um estabelecimento de cada tipo, levando em conta que não existem várias coisas nela. Serra da Neblina tem aproximadamente oito mil habitantes e leva este nome exatamente por sempre ter uma neblina estranha.

Às vezes, em plena tarde de sol, o tempo muda bruscamente, e o céu se esbranquiça igual a um copo de leite. Antigamente tinha o nome de Serra do Leite, mas acho que desistiram desse nome por parecer um pouco ridículo. Fazia com que as oportunidades de estudo e emprego fossem bem mais complicadas na região.

Devo dizer que eu não sou a pessoa mais sortuda do mundo. Sempre li bastante e adorava as histórias de fantasia. Mundos que não existem, dragões, feiticeiras e tudo mais. O poder de entrar em universos totalmente imaginários era como uma fuga da realidade para mim, já que a realidade era monótona ao extremo.

Eu moro com meu tio Benjamim, o único parente próximo que eu conheci. A família do meu pai era estranhamente pequena. Só não era mais estranha que a da minha mãe, da qual eu não conheci nenhum membro até hoje. Tio Ben sempre me diz que eles moram em outro país, mas eu sempre senti que ele está escondendo algo, porque sempre gagueja ao falar deles. É fácil ler suas emoções.

Meu pais morreram em um acidente de carro quando eu era um bebê. Pelo menos, é isso que tio Ben me conta. Ele me acolheu e vem cuidando de mim ao longo desses vinte anos. É um homem de quarenta anos, com comportamento de quinze. Sempre com sua barba falhada e seus cabelos acinzentados e rebeldes. Só não parece um hippie por completo porque não tem os dreads.

Os fios de seu cabelo parecem não gostar dele e sempre estão com uma aparência descuidada, como se estivessem querendo se mudar. Ele nunca se casou e nem teve filhos. Isso faz com que eu também seja a única coisa que ele pode considerar como família nesse mundo.

Às vezes, me sinto um pouco culpado por isso, pelo fato de ele ter cuidado de mim a sua vida toda, perdendo assim a liberdade de sair e de conhecer alguma pessoa. Mas, quando falamos sobre isso, ele sempre me diz que não se casaria, nem teria filhos, mesmo se Deus batesse em sua porta e o mandasse. Faz bem o estilo rústico dele, mas eu não posso saber se fala para não me deixar preocupado ou se é realmente verdade. Ele não gosta de entrar em detalhes quanto à morte dos meus pais. Por muito tempo, pensei que estivesse escondendo algo sobre isso também.

Com o passar dos anos, fui percebendo que talvez ele apenas não gostasse de relembrar tudo aquilo, como se reprimisse essa dor. Ele é do tipo de pessoa que guarda tudo o que sente para si e não deixa transparecer quase nada.

Aquele dia veio, então, à minha porta. Tio Ben foi fazer uma viagem de trabalho e ficaria o fim de semana inteiro fora. Ele relutara muito quanto ao fato de me deixar sozinho, mas eu o convencera com o argumento de que já tinha vinte anos e podia muito bem cuidar de mim mesmo.

Eu tinha acabado de almoçar. E vou confessar a vocês, dormir à tardinha, depois do almoço, talvez seja uma das melhores coisas do mundo a se fazer. Estava sozinho naquela tarde, não podia reclamar disso. Poderia relaxar um pouco e curtir o silencio total – coisa que, acredito eu, qualquer ser humano precisa de vez em quando. Parecia um urso indo para a caverna hibernar e se preparar para o inverno. Senti uma sensação gostosa, tal como aquela que sentimos quando damos nosso primeiro beijo. A analogia me veio à cabeça, e me lembrei de que já fazia um bom tempo que não sabia o que era essa sensação de beijar alguém.

Era um domingo totalmente tranquilo e deliciosamente frio para desfrutar da sensação de liberdade que aquele dia livre de obrigações poderia oferecer. Chovia fino, tão fino que, ao fitar o lado de fora da minha casa por muito tempo, fechava meus olhos por alguns segundos e, quando voltava a abri-los, via flocos de neve imaginários caindo pelo chão da rua totalmente deserta. Confesso que fiquei um pouco frustrado ao perceber que eram apenas gotas normais.

Tudo parecia tão normal que, ao ficar deitado por alguns minutos, comecei a ter uma sensação inquietante de tédio. Levantei e fui até a cozinha pegar um pouco de café. O meu pouco em relação a café nunca seria pouco, pois, quando começava a beber, só conseguia parar com a cafeteira vazia. O vício só era destruído pela preguiça de ter que fazer mais.

Café era meu maior vício, e esse consumo exagerado estava totalmente ligado ao fato de eu ser uma pessoa ansiosa. Sempre que precisava esperar por algo, eu tinha que esperar com um copo de café. Andava de um lado para outro, pensando no que fazer para o tempo passar, e, como era de se esperar, isso fazia com que a insônia reinasse sobre mim. Já havia esquecido completamente daquela sensação gostosa de relaxamento que tivera no começo. Basta começarmos a tentar dormir, parece que nosso corpo prontamente começa a trabalhar para que fiquemos inquietos e não consigamos mais.

As folgas sempre são assim. Esperamos por elas e, quando elas chegam, nós simplesmente não temos nada para fazer e, por vezes, até desejamos voltar para nossas obrigações. Afinal, o ser humano precisa de ação. Não conseguimos ficar sem fazer nada. Inocentemente, resolvi tentar dormir quando já eram dez horas da noite e qualquer coisa em meu quarto era uma distração. Olhava para o relógio, observando os ponteiros passando vagarosamente. Naquele momento, senti que o próprio Cronos[1] estava brincando comigo e fazendo com que o tempo passasse devagar.

Pensei comigo mesmo que talvez existisse realmente alguém que controlasse o tempo. Não necessariamente seria um deus, como Cronos, mas eu tinha a certeza de que existia. É impossível os minutos passarem tão lentamente quando estamos em uma esteira, por exemplo. Corremos e corremos, trocamos a velocidade, assistimos a toda a trilogia do Senhor dos Anéis, e só se passaram cinco minutos na bendita.

Você deve estar se perguntando por que eu estou falando disso. A resposta é muito simples: tenho alguns problemas de atenção, mas estou totalmente focado em conseguir contar para vocês toda a história. Esse é um problema comum entre os jovens, se chama déficit de atenção.

Finalmente, após me distrair com todos os objetos da casa, eu me sentei e peguei o controle da TV. Quando fui apertar o botão para ligá-la, eu ouvi um barulho no quintal. Senti uma leve sensação de susto, mas nada que me impedisse de investigar o que o causara.

Levantei, imaginando que se tratasse de algum cachorro ou coisa assim. Fui me aproximando lentamente e, quando consegui chegar à origem do som, avistei um animalzinho totalmente inesperado. Pasmem, senhoras e senhores. Era uma lontra. Estiquei minha mão em direção à sua cabeça para acariciá-la e logo senti que estava ferida. Era um animal surpreendentemente dócil e aceitou normalmente meu contato. Quando desci minhas mãos para sua barriga, tomei o maior susto da minha vida. Seus olhos se levantaram, e sua expressão mudou instantaneamente. De repente, sem eu acreditar no que estava acontecendo, aquela lontra falou comigo.

— Vai ficar com essa mão aí até quando, rapaz? — disse ela, com um semblante mais sério.

Passei a mão no meu rosto e dei leves tapas para ver se aquilo era realmente verdade. Fechei os olhos e os abri novamente, e, para meu desespero, a pequena lontra estava na minha frente em carne e osso.

— Como você consegue falar? — perguntei, com a certeza de que estava ficando louco por estar falando com uma lontra.

— Nasci assim e coisa e tal, ou algum acidente nuclear. Talvez eu seja uma lontra com poderes especiais — brincou, com um sorriso no rosto, a pequena tagarela.

Foi o primeiro sorriso de uma lontra na história da humanidade. Eu estava lá presenciando aquilo, mas não muito animado.

— Você tem um nome? É macho ou fêmea? — perguntei.

— Seres humanos realmente não sabem diferenciar nada! Lógico que sou macho, e meu nome é Leone.

— Quem te deu esse nome? Todas as lontras falam? — Me agitei e perguntei sem parar.

— Apenas me lembro de ter esse nome. Desde que me lembro, tenho andado sozinho por todos os lugares. — Ele parecia um pouco triste ao responder minhas perguntas.

— Como se machucou? — Respirei fundo e perguntei-lhe.

— Eu estava tentando voar — disse ele, baixinho e aparentemente um pouco envergonhado.

— Voar? Mas lontras não sabem voar! Nem ao menos têm asas. Por que você quer voar?

— Vou te contar tudo, apenas pare com tantas perguntas. E você não me disse seu nome. Muita falta de educação de sua parte.

Uma lontra me deu bronca por não ser educado. Em que mundo eu estava?

— Meu nome é Oliver e vivo aqui sozinho, como poder ver. Saí de casa e deixei meus pais para ter um pouco de liberdade em minha vida. Estou estudando para o vestibular de uma faculdade.

— Grande liberdade está tendo aqui, essa casa se encontra totalmente bagunçada — Leone me repreendeu por serviços domésticos. Àquela altura, eu já nem achava nada vindo dele tão bizarro assim.

Conversamos por aproximadamente uma hora, e ele me contou tudo que acontecera com ele e o porquê de estar machucado.

Leone, desde que se recordava, sempre fora sozinho, indo de riacho em riacho, mergulhando e mergulhando, e não chegava a lugar nenhum. Uma semana antes de encontrá-lo em meu quintal, ele me disse que conhecera uma andorinha. Essa andorinha misteriosamente também podia falar e, ao perceber que ele estava sozinho, pousara sobre o chão e dissera:

— Por que está sozinho aí? — Ao pousar, logo levantara sua a asa e dera uma breve coçada.

— Como pode falar comigo? — dissera ele, assustado.

— Eu simplesmente consigo falar, mas nenhum dos meus parentes consegue me escutar. Fico feliz em encontrar alguém que também consiga.

— Mas como sabia que eu consigo? — Leone perguntara.

— Ora, estava impossível deixar de ouvir suas reclamações por não ter encontrado nenhum peixe hoje — respondera a andorinha, em tom de brincadeira.

— Mas, hoje em dia, com os rios tão poluídos, cada vez é mais complicado achar alimento — completara Leone.

— Eu te entendo, caro amigo, passo pelos mesmos problemas no céu. Nós temos que baixar o nosso voo muitas vezes devido à fumaça de queimadas e da poluição.

Segundo Leone, os dois conversaram por horas e horas e se tornaram grandes amigos. A andorinha se chamava Lico e tinha se separado de seu bando após entrar em uma grande tempestade. Lico não tinha a mesma eficiência ao voar quanto as outras andorinhas. Ele tinha uma asa normal e a outra pequena, e isso complicava muito o seu equilíbrio, fazendo com que, por muitas vezes, viesse a cair no chão e se machucar.

Lico estava muito triste por ter se perdido e por não conseguir voar. Isso tinha afetado Leone, que estava totalmente disposto a ajudar o mais novo amigo. Foi aí que entendi por que estava machucado em meu quintal. Ele estava tentando voar, mas qual a probabilidade de uma Lontra voar? Charles Darwin estava se remexendo em seu túmulo, naquele momento, eu podia sentir. Foram muitas quedas de árvores e muitas tentativas em vão até que ele me encontrara acidentalmente. Ele estava disposto a aprender a voar para poder ajudar Lico a encontrar sua família. Ele pretendia virar uma andorinha?

Eu estava me fazendo essa pergunta constantemente, até que concluí que, apesar de conseguir falar, ele não era um animal muito inteligente. Era uma lontra, afinal. Algo de inocente assim fazia sentido. Eu estava totalmente insano e desocupado, até que decidi que tentaria ajudar aqueles dois de alguma forma. Ah, você deve estar se perguntando onde estava Lico quando Leone apareceu em meu quintal. Ele estava dormindo na árvore e espiando tudo. Depois de toda história contada, ele veio lentamente em direção à minha porta, embaraçado.

— Posso entrar? — perguntou, meio que corado.

— Por que não? — eu disse e comecei a ficar preocupado, já que agora estava falando com uma andorinha. Toda aquela maluquice estava se tornando normal, e eu não sentir estranheza era mais louco ainda.

Depois de um tempo que os dois estavam em minha casa e já tinham se acomodado, eu comecei a pensar sem parar, mas ainda estava ali o meu grande problema. O que eu faria para ajudar? Eu simplesmente não sabia o que fazer. Fiquei horas e horas pesquisando na internet sobre algum jeito, mas não achei absolutamente nada

A grande verdade é que Lico tinha um sério problema de formação, e era uma situação bem delicada. Eu resolvi, então, levá-lo a um veterinário. Era o único profissional que tinha algo a ver com uma andorinha. Peguei uma velha gaiola no porão de casa e disse a Lico que ele teria que entrar. Ele ficou receoso, mas não tinha nenhuma outra opção além de confiar em mim. Foi pensando assim que ele entrou.

Depois de alguns minutos examinando Lico, o veterinário me disse que, geneticamente, era impossível restaurar sua asa. Aquilo me deixou muito chateado – eu já estava lidando com o problema daqueles dois como se fosse meu –, mas minha mente não parou aí. Logo me veio novamente uma referência à mitologia grega, na qual sou totalmente interessado: Dédalo e suas asas projetadas com penas de aves e com fios que ele juntara e colara com cera.

Tinha sido castigado juntamente de seu filho Ícaro por Minos, que controlava o mar e a terra, e jogado em um labirinto que ele mesmo havia construído. Foi assim que resolvera escapar pelos céus. Seu filho voara muito alto, não seguindo seus conselhos, e, ao chegar perto demais do sol, queimara a cera que prendia as penas e caíra. Dédalo fugira sozinho e enterrara seu filho. Uma lembrança um pouco triste, eu diria, mas que poderia funcionar.

Quando cheguei em casa, disse a Lico e Leone que daria um jeito e pedi que esperassem um pouco. Eu poderia procurar por penas de galinha ou algo assim, mas o tamanho das penas delas é muito distante do de uma andorinha. Eu precisava encontrar penas de andorinha, mas não tinha a mínima ideia de onde procurar. Começaria, assim, a minha jornada pela cidade atrás de qualquer tipo de pena que se parecesse com a de uma andorinha. A maior dificuldade era fazer isso sem que as pessoas achassem que eu ficara louco.

Eu já estava falando com uma andorinha e uma lontra e, agora, estava andando pelas ruas buscando penas. Essa história toda estava me fazendo não me preocupar muito com o que as pessoas achavam. Aquilo surgira como uma aventura em meus dias tediosos. Eu estava gostando de ter o que fazer e não podia demorar muito. Lico precisava reencontrar seu bando, e o inverno se aproximava com o frio. As andorinhas sempre saem de lugares frios e migram para onde o verão se encontra. Ou seja, se não nos apressássemos, mesmo com todas as paradas que elas fazem, ele poderia não conseguir encontrá-lo.

Vocês devem estar se perguntando como eu sei tanto sobre elas. Quando você encontra uma andorinha falante em sua casa e você resolve ajudá-la, é quase que inevitável dar uma bela pesquisada na internet para saber como fazer isso. Não poderia arrancar penas de nenhum pássaro, logicamente. Foi aí que eu me lembrei de que, na praça da cidade, sempre tem muitos pombos e aqueles senhores e senhoras que os alimentam, como deve ter em qualquer lugar do mundo. Quando passo por lá, sempre vejo muitas penas. Eles estão dominando a cidade; os pombos ainda vão nos destruir.

Eles já nem voam mais com a nossa presença, andam normalmente, sem medo algum. Mas, enfim, chega de teoria conspiratória contra os pombos. Eu fui até a praça e, como o de costume, lá estavam eles. Achei uma grande concentração ao lado de uma grande árvore. Tinham tantas penas ali, que parecia uma granja. Tirei a sacola do bolso e olhei desesperadamente de um lado para outro para ver se alguém estava olhando. Quem estivesse vendo aquilo, com toda a certeza, acharia que eu estava pegando para fazer uma macumba ou algo assim. Eu rapidamente consegui encher a sacola com aquele punhado de penas sujas de milho e a amarrei para ninguém ver o que estava dentro.

Corri até o mercado e comprei bastante cola, todos os tipos de cola. Voltei para casa e, quando cheguei lá, os dois estavam adormecidos na varanda. Andei sobre a ponta dos dedos e os pés levantados, para que não fizesse barulho, e fui para a garagem com aquele monte de coisas. Comecei jogando todas as penas que tinha pegado em cima de uma mesa velha, tão velha que provavelmente já tenha visto umas quatro Copas do Mundo.

Peguei um rolinho de fibra que usava para pescar antigamente, quando ainda não tinha sido consumido por minha atual preguiça. Juntei um punhado de penas, passei a linha nelas e as amarrei. Tinha ficado muito parecido com uma peteca, mas eu achei que poderia funcionar assim mesmo. Fui juntando mais e mais penas, até que não houvesse espaço para mais nenhuma. Depois de um tempo ali dentro, e com as gotas de suor descendo da minha testa para a ponta do nariz, eu ouvi um barulho de porta se abrindo. Era Leone, com um semblante de surpresa.

— Você realmente está fazendo o que eu acho que está? — perguntou-me, com os olhos arregalados.

— Foi a única alternativa que encontrei para ajudar, sinto muito.

Ele ficou me observando em silêncio por alguns minutos. Se aproximou novamente e perguntou com um ar de tristeza:

— Como vamos conseguir chegar no bando a tempo?

— Elas vão parar de voar à noite, e é aí que ele precisa ser forte para aguentar essa viagem sem paradas. Ou com poucas paradas.

— E se ele não conseguir? — perguntou com preocupação.

— Eu prefiro trabalhar com a hipótese do sucesso de nossa operação, mas, se algo acontecer, tentarei encontrá-lo de todas as formas possíveis — respondi, tentando animá-lo.

— Certo, vamos conseguir — Leone parecia tentar convencer a si mesmo de que daria certo.

O tempo começava a ser meu maior inimigo. Tinha preparado toda a asa e colado, mas precisava que a cola secasse para que, enfim, pudesse introduzi-la em Lico. E ainda não tinha explicado a minha solução para ele. Eu sabia que ele toparia qualquer coisa para conseguir, mas, se algo desse errado nesse procedimento, eu teria que proibi-lo de alçar voo para que não corresse perigo nenhum de se machucar. De dez em dez minutos, eu voltava para conferir se as penas já tinham se fixado. Até que, depois de algum tempo, percebi que já estavam no ponto para que prosseguíssemos com o plano.

Leone estava ao meu lado todo esse tempo e, ao perceber que estava pronto, imediatamente se levantou. Seus pequenos olhos se mostravam totalmente corajosos. Nos aproximamos de Lico, e ele estava limpando suas penas.

— Por que demoraram tanto lá dentro? — perguntou com um certo nervosismo.

— Estávamos esperando que as penas secassem para virarem uma asa — disse a ele, com a cabeça baixa, um pouco envergonhado ao revelar minha ideia.

— Eu confio em você e, se chegou à conclusão de que esse era o melhor que poderia fazer, eu farei tudo que quiser. — Ele parecia querer me animar. Olhei para os dois, que estavam totalmente confiantes de que daria certo, mas Leone parecia esconder algo. Estava muito silencioso para uma lontra tagarela. Lico bateu suas asas e, com dificuldade, chegou até minhas mãos. Eu peguei minha asa forjada e sobrepus a sua asinha menor. Me surpreendi com o tamanho. Ficara quase que idêntica à sua asa normal. Me deu um grande alívio saber que pelo menos o problema do equilíbrio tinha sido resolvido.

Nós seguimos assim com a continuidade de nossa operação. Eu a chamei de “A volta de Ícaro”. Brincar com a mitologia foi um jeito de relaxar e poder passar uma tranquilidade para eles, mas meu coração palpitava mais e mais, e minha voz já começava a baixar o tom. Passei minha mão sobre minha testa e sequei o suor, levantei a cabeça, olhei para os dois e disse:

— Vamos para a montanha procurar um lugar alto de onde Lico possa pular.

— Vamos! — os dois disseram quase que ao mesmo tempo.

Ao chegar lá, fui prontamente olhar para aquela andorinha destemida e percebi que sua vontade de voltar para a família fazia com que o medo sumisse. Leone me olhava de canto e parecia suspeito. Desviei meu olhar para trás, por um instante, para olhar minha casa pequenina ao fundo e, quando me virei novamente, tomei um susto enorme.

Lico corria na frente e, ao pular da montanha, planou surpreendentemente bem e me fez duvidar de que aquela asa pequena que ele tinha realmente atrapalhava. Quando prestei atenção, vi que ele estava batendo meu combinado de penas, que funcionava perfeitamente. O orgulho por ter conseguido durou pouco tempo. Quando olhei para o lado, tomei outro grande susto. Leone corria em direção ao penhasco, pronto para pular. Eu estava totalmente desesperado, seria o fim. Ele pulou.

Fechei meus olhos porque não aguentaria olhar aquela cena. Respirei ofegante e fundo ao mesmo tempo e, quando olhei para o céu, fiquei totalmente perplexo. Ele estava flutuando e, como se fosse mágica, uma luz verde brilhava ao redor do seu corpo. Quando virei novamente minha atenção para Lico, percebi que as penas falsas estavam se soltando, dando lugar a uma nova pena do mesmo tamanho de sua outra asa, fazendo com que ele se tornasse uma andorinha normal.

A luz do corpo de Leone foi se dissipando e, aos poucos, sumiu. Ao desaparecer completamente, eu percebi que, onde era para estar duas patas de lontra, estava um grande par de asas e uma lontra voadora me olhava com um ar de felicidade e nenhuma surpresa. Senti um vento frio e ao mesmo tempo reconfortante vindo por trás do meu pescoço. Quando me virei, fui notando que todas as folhas das árvores caídas no chão se juntavam, formando um redemoinho com o vento.

De repente, o vento se foi e as folhas caíram. Naquele instante, meu coração parecia que ia sair pela boca. Uma garota apareceu em minha frente, com uma coroa feita de flores e com um sorriso no rosto. Ela se vestia inteiramente de branco, igualmente à cor de sua pele: branca com um tipo de fumaça saindo de seu corpo, como se fosse uma neblina. Não senti medo, senti uma sensação de felicidade ao olhar para ela. Quando ela chegou perto do meu corpo, fiquei paralisado e não pude me desviar de seu rosto indo em direção ao meu ouvido.

— Um humano tão gentil, tão bom com os animais. — Era uma voz tão doce e angelical, que eu fiquei sem reação. — Precisamos de sua ajuda, ou todo nosso povo pode morrer.

Naquele momento, percebi que todos os pelos do meu corpo estavam arrepiados.

— Ajuda com o quê? Quem é você?

— Não há tempo para explicar, me encontre aqui amanhã quando o sol nascer.

O corpo da garota foi ficando transparente aos poucos, até que ela sumiu completamente dos meus olhos.

[1] Deus da mitologia grega, que era capaz de controlar o tempo.

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