Fãs, do início ao fim #5 – Felizes para sempre

Ensaio sobre o amadurecimento nas relações entre fãs e ídolos (parte 5)

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Parte 2

Parte 3

Parte 4

Dizem que, quando o fim chega, a gente volta a pensar no começo. Eu diria isso. O fim é aquele momento em que, ao olhar para trás, o cansaço bate. O final feliz, no entanto, é o reconhecimento de que foi trabalhoso demais, cansativo demais, mas que deu certo e que vai continuar dando certo, que valeu a pena e ainda vale. Não é um fim de verdade, é apenas um ponto em que a euforia passa, a intimidade é grande e o companheirismo fica.

Quando o fim chega, a gente volta a pensar no começo. E no começo do meu fim, eu estava, de volta, dentro do meu começo. Dentro de um ensaio do Reset.

Felizes para sempre

A melhor surpresa que Cínthia poderia ter aconteceu em março de 2014, quando ela enviou um e-mail a Phil, um dos integrantes originais e remanescentes do Reset. Escrevera para dizer que passaria pelo Canadá no seguinte mês de junho, e ele respondera que essa era uma ótima data para que ela o fizesse. Naquele período, a banda dele tocaria com os integrantes originais.

E foi assim que ela entrou para assistir seu segundo ensaio do Reset. Claude não estava lá, nem qualquer outro músico que ela tinha visto da primeira vez, com exceção de Phil. Ele estava acompanhado de outros três homens, e esses três estavam agora no Simple Plan.

Ao todo, naquela tarde de quinta-feira, ela passou seis horas dentro de um ensaio, escutando algumas de suas músicas preferidas repetidas vezes. Em todo o casamento que tivera com eles durante muitos anos, foi ali que ela notou como eles eram de verdade. Em algum momento, enquanto falavam sobre mulheres, em francês, língua que ela pouco dominava, o vocalista ergueu um dedo indicador em sua direção.

“Não filme isso”, pediu em tom de ordem.

Ela estava apenas trocando mensagens com outro amigo, sobre qualquer coisa, menos o que estava acontecendo ao seu redor. Seus músicos preferidos estavam andando por ali, parando na mesa à sua frente para pegar água e comida, perguntando se ela estava bem e, vez ou outra, traduzindo conversas para que ela pudesse entender, em inglês, sobre o que falavam. Ela não tinha intenção nenhuma de filmar qualquer conversa, nem de passar seis horas com o coração acelerado porque eles estavam ali.

Quando o ensaio acabou, ela os acompanhou ao restaurante de mais um integrante do Simple Plan. No fim das contas, o único deles que não vira naquela noite fora Sebastien. Jeff tinha sido um bônus, graças à escolha do cardápio da noite, feita por eles.

Ela aproveitou para contar para David sobre o acidente com Paula, alguns anos antes, e como ela ainda estava ofendida por ele ter sido o único que não tinha conseguido ver. Deu um simples “tchau” para Chuck quando ele precisou ir embora mais cedo, depois de comer uma pizza, para buscar a esposa no aeroporto. Ela sabia que ele tinha se casado havia cerca de uma semana e, de qualquer forma, ele era o único que a decepcionara em todas as ocasiões até então. Assim como decepcionara Becka.

Então, chegou Pierre. A cabeça de Cínthia já parecia explodir, àquela altura. Tinha passado o dia todo no barulho e as últimas horas tentando decifrar os assuntos em francês. Pediu que ele e Phil conversassem em inglês apenas até que o remédio que tinha tomado fizesse efeito. Ele arqueou as sobrancelhas e disse que ela deveria agradecer por estar ali, que era muito sortuda. O tom era de brincadeira, e ele não negou o pedido.

Ela demorou alguns instantes até decidir o que responder. Havia passado as últimas duas semanas na companhia de Phil, e aquilo ainda era um ensaio do Reset, não do Simple Plan. Tinha, sim, muita sorte. Sorte de ser amiga de Phil, de amar Reset por muitos anos e de ter caído ali, no meio de todos eles. Mas soube que não era sobre aquilo que ele estava falando. Soube que ele estava falando sobre estar em meio a eles, do Simple Plan, em um ensaio, já que isso não costumava acontecer. Por um momento, quis chamá-lo de metido. Limitou-se a dizer que sabia que era sortuda, mas que ainda estava com dor de cabeça.

Meia hora depois, era hora de ir embora. Phil foi ao banheiro e a deixou sozinha com Pierre no balcão ao que se sentavam. Ele perguntou se ela estava entediada. Ela achou aquilo um absurdo. Negou com a cabeça e respondeu que ainda só sentia um pouco de dor.

“Então, você vai ao show de Kirkland Lake?”, referiu-se à apresentação que o Simple Plan faria na semana seguinte. Ela assentiu, para que ele continuasse. “Quanto custou a passagem para lá?”

“Uns trezentos e cinquenta dólares”.

Ele formou um bico com os lábios, mas não chegou a assobiar.

“Uau. E vai sozinha? Corajosa”, completou ao que ela assentiu com a cabeça. “Então, você é uma fã dedicada”.

Ela ergueu os ombros. Era engraçado vê-lo falar como se nunca tivesse visto isso antes. Engraçado vê-lo falar como qualquer outra pessoa falaria sobre aquela situação. Ele não era qualquer pessoa quando o assunto era aquele.

Phil retornou para levá-la até o metrô, e Pierre abriu os braços na direção dela.

“Te vejo amanhã no show do Reset?”

Ela assentiu e se aproximou para abraçá-lo.

No dia seguinte, Pierre não chegou a vê-la. Ela tinha acesso aos bastidores do show, como repórter, e não quis incomodá-lo. Foi vê-la apenas na semana seguinte, quando ela esperou por eles atrás da casa de show, por onde eles sairiam. Ele a abraçou e tirou uma foto. Não disse nada sobre reconhecê-la, mas perguntou à garota que esperava ao seu lado se ela também era do Brasil. Em questão de reconhecimento, dava na mesma.

Mariana disse que sim. E depois de Cínthia ir embora, ele ainda veria Mariana nos próximos quatro shows que faria no Canadá ao longo daquele ano. No último, autografaria a bandeira canadense que ela carregava. Por escrito, desejou um bom voo.

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