Fãs, do início ao fim #4 – Casamento

Ensaio sobre o amadurecimento nas relações entre fãs e ídolos (parte 4)

Parte 1

Parte 2

Parte 3

No meio de tudo isso, por causa de tudo isso, quando a hora não chegava, quando a próxima vez ainda estava por vir, eu prestava atenção em tudo. Quando se dá um passo para trás, sua visão amplia para todos os lados. Quando se dá um passo para trás, depois de já ter aprendido a como tratar um ser humano, antes de um ídolo, fica ainda mais fácil entender como cada um deles quer ser tratado. É a hora que você está dentro o suficiente para enxergar de fora, e é de fora que se conhece o íntimo de alguém que você não conhece de verdade.

Casamento

Não fazia um ano desde que os vira em novembro de 2012, quando eles voltaram para mais um show em São Paulo. Ela sabia, ao lado da mesma amiga da vez anterior, que os veria novamente. Estavam com ingressos de entrada antecipada na casa de show, que permitiria que assistissem à passagem de som e conversassem com os integrantes da banda. Foram até o hotel para vê-los sair na tarde da apresentação, pegaram um táxi para o Credicard Hall, próximo ao hotel, e voltaram ao fim do show para vê-los chegar.

Tinham fotos com eles em suas máquinas fotográficas, autógrafos em encartes de CDs e os cabelos revirados do suor que veio com o calor do show e do aperto da grade. Com a entrada antecipada, conseguiram ficar também na primeira fileira.

A terceira amiga, que não fazia parte do fã-clube oficial para entrar na mesma promoção que as duas, ainda não tinha nada. Elas se enfiaram em meio à multidão de fãs aglomerada na porta do hotel e colocaram a mais nova delas na fila para foto. Sabiam que ela conseguiria falar com alguns deles, que costumavam transitar sem muitos problemas em meio a tanta gente. Foi assim que Paula conseguiu fotos com o baterista e um dos guitarristas.

Cínthia e Suellen estavam para fora da fila com a câmera da amiga, para que, quando eles passassem por ali, tirassem a foto para ela. Elas não precisavam de mais uma foto com cada um deles naquela noite. Vê-los de perto era bom, estar ali com eles andando para lá e para cá era bom. Era o suficiente.

O vocalista se afastou da multidão para conseguir passar para o outro lado da entrada do hotel. Havia uma barreira de fãs que separava o lado das pessoas com quem ele já tinha falado e o lado das que ainda não tinha. Pierre passou a centímetros das duas, longe de quaisquer outros adolescentes, e olhou nos olhos de uma, depois nos olhos de outra. Continuou andando a passos lentos, à espera de que fosse chamado, mas não foi.

Quando ele encontrou o outro lado da fachada do hotel, Suellen murmurou para a amiga, os olhos fixos em Pierre:

“Nós somos muito comportadas”.

Cínthia tinha os olhos no mesmo lugar que ela. Nenhum sorriso no rosto. E assentiu com a cabeça.

Foi mais tarde que Sebastien parou a dois metros de distância. Tinha demorado para sair do hotel e começava a atender as primeiras pessoas. Ela viu quando as duas garotas se aproximaram, depois outras duas, alguns meninos, mais pessoas. Eram uma dúzia de corpos o rodeando, muitas mãos esticadas em sua direção, com papéis quase tocando seu rosto. E ela sabia o quanto ele odiava aquilo. Tinha até mesmo pedido desculpas para ele, mais cedo, sobre aqueles mesmos fãs que o cercavam, quando vira isso acontecer antes do show e depois o encontrara na passagem de som. Desculpas pelo que ela não havia feito.

Ela se aproximou de um segurança brasileiro, cutucou-o no ombro e apontou o que acontecia logo na frente deles.

“Você pode pedir pro pessoal não montar em cima dele?”

“Pode ficar tranquila, que ele já vai atender todo mundo, viu?”, ele respondeu com um sorriso pouco simpático.

Ela o correspondeu da mesma forma.

“Mas se você não tirar o pessoal de cima dele, ele vai embora.”

O homem ficou em silêncio. Sebastien autografou mais um papel, empurrou com cuidado algumas das meninas e desapareceu pela porta, hall adentro.

Paula conseguiria uma foto com Sebastien na manhã seguinte. Tinha colecionado fotos com todos os quatro, menos o baixista. Quando David não se dispôs a conversar com ninguém, pelo segundo dia seguido, ainda que todas as pessoas restantes ali estivessem comportadas para que eles pudessem atender a todos, ela se afastou do grupo e cobriu os óculos de grau com as mãos para chorar. Era seu preferido. Ela nunca o perdoaria. Até a próxima vez que o visse. Ela ainda estava namorando.

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