Fãs, do início ao fim #3 – Namoro

Ensaio sobre o amadurecimento nas relações entre fãs e ídolos (parte 3)

Parte 1

Parte 2

Nada disso compõe o pior cenário. O pior cenário é quando, depois de todos esses anos sonhando antes de dormir, toda a chuva, o sol e o suor, seu ídolo não é o que você esperava que ele fosse. Quando todos aqueles vídeos e fotos dele com fãs não espelham o que aconteceu com você, quando chegou a sua vez. E isso só acontece se você passou por todas as fases anteriores e decidiu mergulhar de cabeça, ir atrás do que quer e dar a cara a tapa para o que estiver por vir.

Namoro

Becka colocou uma amiga debaixo do braço e a levou para os fundos da casa de shows, em 2009. Tinha dezoito anos, o nariz comprido, o queixo quadrado e os olhos esverdeados. Quem também tinha as mesmas características era Chuck, o baterista do Simple Plan.

Ela e Cínthia haviam se conhecido assim, alguns anos antes. Uma amiga em comum dissera que estudava na sala de uma menina que também gostava muito daquela banda e soube logo que elas teriam muito assunto juntas. Marie convidou Cínthia para ir até a festa junina do colégio em que estudava, mas ela mesma não estaria presente. Becka tinha ficado de esperar por ela na portaria, para que pudessem entrar juntas, mas Cínthia não tinha um celular, o número de Becka, nem nunca vira nenhuma foto da garota.

“Confia em mim. Procura pelo Chuck, mas de cabelos longos”.

Cínthia olhou ao redor, naquela tarde de domingo, e andou até uma garota.

“Becka?”

“Cínthia? Oi! Como me encontrou?”

“Marie me mandou procurar pelo Chuck”.

A garota riu, e elas entraram. Anos mais tarde, no portão do show, à espera que eles saíssem pelos bastidores, aquela não tinha sido a única conversa de Rebecca sobre sua semelhança física com o baterista. Ele fora seu preferido, desde sempre, e também o único a se aproximar da grade para falar com os fãs que esperavam.

Ela sentiu o coração palpitar quando ele se aproximou e deu a mão para sua amiga, alta, de pele morena, cabelos lisos e olhos amendoados. Becka pediu que ele desse a mão para ela também, e ele voltou a segurar a mão da amiga. Ela pediu uma foto, e ele posou para a câmera dela, mas ao lado de um segurança. Pediu por um autógrafo, mas ele não tinha caneta alguma. E não demorou a dizer que precisava ir embora.

“Chuck, espera. Só tem mais uma coisa que eu queria muito te dizer.”

Ele olhou de volta e disse: “Rápido”.

“Todo mundo fala que eu sou muito parecida com você, mas de cabelo comprido e sem a barba”, disparou a garota, ainda que ele mal tivesse uma barba.

“Ah, ok. Legal. Tchau”, foi a resposta que recebeu.

Quando ele se afastou na direção da van que o esperava no estacionamento, ela deixou os ombros caírem. Viajou de São Paulo a São José dos Campos em silêncio e colocou as fotos no Orkut. Tinha conseguido falar com alguns outros deles, mais tarde. Numa delas, a legenda: “Pareceu um sonho. E você também costumava ser um sonho”.

*

E, depois de tudo isso, quando a decepção passa, a banda fica. Dá até para reavaliar seu integrante preferido, começar a sonhar com outros, ou simplesmente entender que conheceu o cara no dia errado. Quando o relacionamento é sério, brigas vão e vêm.

Para mim, Sebastien deixava de ser um sonho na mesma época, por motivos muito menos decepcionantes. Na verdade, nenhuma das vezes em que o vi, ele me decepcionou. Todas as vezes em que o vi, tomei cuidado para que ele não decepcionasse. Tomei cuidado com o que dizia para ele, com como pedia um abraço e com como dava a distância necessária para que ele não ficasse incomodado.

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