Fãs, do início ao fim #2 – Primeiro beijo

Ensaio sobre o amadurecimento nas relações entre fãs e ídolos (parte 2)

Leia o início aqui.

Quando você se deita na cama e imagina como gostaria que um encontro com seu ídolo acontecesse, você pode estar certo de que, naquele momento, está limitando todas as suas possibilidades. Essas coisas nunca acontecem do jeito que a gente quer. Então mesmo que você sonhe baixo e se imagine ao lado dele na porta de um hotel, em meio a outras centenas de fãs – o que, por si só, é improvável, já que ninguém sonha com isso –, a porta do hotel passa a ser um lugar em que você não vai conhecê-lo. Ainda que você saiba que aquele cara sempre sai do hotel para falar com todo mundo, o seu dia vai ser o dia em que ele vai ter uma intoxicação alimentar ou uma gripe muito forte. Ainda existirão estudos que comprovem.

Enquanto isso, existem duas coisas que se aprende após correr atrás de uma banda para conseguir uma foto, um abraçou ou, mais sem graça de tudo isso, um autógrafo sem o seu nome – ou seja, uma assinatura mecânica em meio a uma multidão. Seu ídolo nem encostou naquele papel, encostou apenas a ponta da caneta e fez um rabisco que nem deve ser a assinatura dele de verdade, mas que passa a valer o mundo para você.

A primeira dessas coisas é que tudo vai dar errado no dia em que você planeja conhecer seu ídolo, qualquer um que seja. Ainda que você consiga conhecê-lo, antes disso, você vai se perder, tomar chuva e andar durante horas debaixo do sol, só para aparecer com as bochechas rosadas, o suor seco grudado na testa e o cabelo desarrumado e oleoso. A segunda é que ele é uma pessoa normal e que, mesmo que você queira tentar arrancar um pedaço, essa não é a melhor alternativa para aproveitar o momento.

Eu aprendi isso na marra, e aprendi isso porque, da primeira vez que conheci alguém importante para mim, esse alguém não era nenhum ídolo teen.

Primeiro beijo

Foi apenas um ano e meio mais tarde que ela finalmente pisou em Montreal pela primeira vez. O Simple Plan não faria nenhum show no país durante todo o tempo em que ela estaria por lá, mas nada disso importava. Ela queria conhecer tudo: desde a butique de roupas que eles possuíam no subúrbio da cidade, até a escola em que eles haviam crescido e se conhecido para, alguns anos depois, formar a banda.

Outra coisa que importava era que ela decolara do Brasil com uma certeza: a de que conheceria a formação atual da banda que eles tinham formado ainda quando estudantes. Nenhum dos integrantes do Simple Plan fazia parte dela, mas os primeiros CDs do Reset ainda tocavam com a voz de Pierre Bouvier, e ela ainda gostava de todas aquelas músicas antigas, além das atuais, já com outro cantor. Ela era a única do grupo de amigos que se importava com aquela banda velha, que quase desaparecera quando os músicos a largaram e deixaram nas mãos de apenas um integrante da formação original.

Nada disso importava. Ela estava com o contato do atual baixista gravado no celular e tinha a irmã a tiracolo para ajudar no que precisasse. Ao menos, ela imaginava que sim. Claude oferecera carona, mas o estardalhaço que a família criara em torno disso fora tão grande, que ela não via outra opção além de confiar no Google Maps e no endereço que ele mandara da casa da mãe do guitarrista Phil, o único na banda desde o início. Era lá em que eles ainda ensaiavam, com trinta anos nas costas, como uma banda de colégio.

O dia começou perfeito. Era sua primeira manhã na escola de inglês, uma segunda-feira, e ela sairia de lá direto para a estação de trem. O caminho que parecia ser fácil ficou cada vez mais difícil, quando a irmã mais velha, fluente no idioma local, cruzou os braços e disse que não ajudaria em nada: se Cínthia quisesse ir até lá, que encontrasse o caminho sozinha. Assim, a garota precisou abrir a boca e arriscar todas as palavras que sabia, as frases mal construídas e as que ensaiava durante longos minutos dentro da cabeça antes de verbalizar. Ninguém parecia falar inglês. Quem falava não sabia onde ficava a estação de trem.

Descobriram, mais de uma hora depois, que estavam pisando sobre ela durante todo aquele tempo. O ensaio estava marcado para começar às 16h, e já passava das 17h quando elas encontraram o caminho certo. O próximo trem para Île-Bizar passaria apenas dentro de mais quarenta minutos. Dali a cinco, sairia outro para Pierrefonds. Pela biografia das bandas, ela decidiu que pegariam o trem mais próximo. As cidades precisavam ser perto, já que eles moravam em uma e estudavam em outra. Pegariam um táxi quando desembarcassem.

Mas começou a chover. Começou a chover, a irmã estava cansada e queria ir embora. Ela finalmente ligou para Claude para explicar o que tinha acontecido, por que estavam tão atrasadas, e dizer que estavam indo embora. O garoto pediu para que elas ficassem por lá e enfrentou um trânsito de mais quarenta minutos para chegar até o local. Quando eles entraram na coberta em que estavam escondidas da chuva, o mundo pareceu girar em câmera lenta para ela.

Primeiro, veio Phil, com os cabelos compridos até os ombros, voando como em uma propaganda de shampoo. Depois, Claude, tão alto e desengonçado, que tinha os ombros curvados para a frente. Quando o primeiro deles perguntou se uma delas se chamava Cínthia, ela não soube o que fazer. Estava sentada e se levantou de um pulo, mas nada do que tinha imaginado cabia para aquele momento.

Ela não podia gritar. Eles não eram os pop/rock stars do Simple Plan; tocavam punk e não estavam acostumados com fãs histéricas. Não podia chorar. Ao contrário de um grupo de fãs que eles nunca mais veriam – e talvez nunca mais a vissem –, eles sabiam seu nome, ainda assim. Não podia correr até eles e assustá-los depois de tudo o que haviam feito por ela – o convite e, claro, o trânsito de ida e volta que pegaram no fim da tarde.

Decidiu cumprimentar cada um deles com dois beijos, como as regras da cidade mandavam, e se comportar o melhor que podia. Sem escândalo, sem perguntas pessoais, conversando como uma pessoa normal. E ela se lembraria disso, três anos depois, no final de 2012, quando estivesse fechada dentro de um estúdio de rádio com uma amiga, os outros quatro integrantes do Simple Plan e Sebastien.

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