Fãs, do início ao fim #1 – Amor platônico

Em 2014, eu me pós-graduei em jornalismo-literário, aquele tipo de jornalismo em que você conta coisas que realmente aconteceram, mas de um jeito mais bonito do que nos jornais, como se fizessem parte de um livro. No TCC, eu quis falar sobre fãs, mas já tinha contado muitas histórias de fãs no meu TCC da faculdade de jornalismo. Então, para a pós-graduação, eu pensei em fazer algo diferente. Voltei lá atrás na minha própria história como fã e pensei no que aprendi ao longo do caminho: sobre as fases que ficaram para trás, que mudaram, que perderam completamente o sentido, que vieram, que foram embora de novo. E eu consegui comparar todas elas com um relacionamento amoroso. Foi assim que surgiu esse texto, comparando um fã recente e um fã que tem anos de história com a banda. Dividi o texto em 5 partes, conforme o ensaio foi escrito na época.

 

Ensaio sobre o amadurecimento nas relações entre fãs e ídolos (parte 1)

 

Dia desses, desci para tomar um lanche após o expediente no site de entretenimento jovem em que trabalho, acompanhada pelo novo estagiário. Ele foi contratado para escrever sobre filmes, quadrinhos e quaisquer outros assuntos que englobem o universo geek. Aquele termo que as pessoas legais têm usado para falar sobre nerds que gostam de videogames e super-heróis.

Com dezenove anos, ele se sentou à minha frente com um prato de crepe e falou sobre o último jogo de Lego que teve a oportunidade de testar. Aqueles quadradinhos de encaixar, proibidos para crianças pequenas graças ao perigo de sufocamento, agora podem ser jogados virtualmente. Não se monta nada no PlayStation, mas o gráfico é feito com eles, e você controla um personagem em um enredo já famoso, transformado em cenário feito com peças montáveis, como Parque dos Dinossauros e Star Wars.

“Sabe, Eduardo? Você pode dizer o que quiser sobre Simple Plan, mas você é até bem parecido com um deles nessas coisas”.

“Jura? Qual deles? Sabe? Suas fotos com eles são uma coisa que não entendo. Parece tão imaturo, e você parece tão madura”, disse o garoto que ainda brinca de jogos de montar pecinhas.

Ele não foi o primeiro a dizer, apenas o primeiro a dizer isso com essas palavras. Também o primeiro que chegou tão próximo para olhar de fora o que todos os amigos que cresceram comigo conseguiram olhar de dentro. Nenhum deles precisa compreender, porque não é fácil entender a cabeça de um fã quando se está fora dela. Mas eles talvez saibam, um pouco melhor do que alguém que acabou de chegar, a diferença da paixonite imatura e do amor confortável.

Eu não sou casada, mas, pelo que muitos dizem por aí, penso que talvez a história de um fã de verdade, aqueles que não abandonam a banda após dezenas de anos, possa ser comparada a um relacionamento de longa data.

Amor platônico

Naquela noite de 2008, Cínthia se deitou mais cedo. Ela usava shorts largos do pijama e um agasalho cinza, do namorado. Gabriel, um dos adolescentes mais queridos da paróquia católica mais próxima de sua casa, o tinha propositalmente esquecido com ela na última vez em que haviam se visto. Ele era dois anos mais velho, andava de bicicleta pelo bairro em que moravam e usufruía de uma liberdade que ela, com dezesseis anos, nem sequer sonhava em ter.

Quando se pensa em uma garota assim, de cabelos molhados em uma noite escolar, durante uma frente fria, encolhendo-se sob as cobertas em um agasalho masculino cinza, estampado “Montreal” em azul-marinho, a primeira imagem que se tem é a de uma adolescente apaixonada. E ela estava. A primeira coisa que passou por trás dos seus olhos, no momento em que eles se fecharam por volta das onze da noite, foi o rosto dele. Ele. Sebastien. O guitarrista de sua banda preferida. Ela apertou os braços ao redor da roupa que usava e desejou estar em Montreal debaixo de outros cobertores.

Gabriel, Luiz, Igor, Lucas, Fernando. Não existia mais ninguém no mundo que tivesse os mesmos olhos, o mesmo sorriso, a mesma voz nasal e os pés levemente tortos para dentro, como ele tinha. Também estava para chegar outro garoto que a fizesse esconder o rosto para conter uma reação nervosa cada vez que aparecia, não importasse se em momentos esperados ou inesperados. Não importasse se apenas do outro lado da tela do computador. E aí estava o problema. Cínthia nunca o havia visto pessoalmente. Ao menos, não de perto.

Fora naquele mesmo ano, apenas alguns meses antes, a última vez que o vira de longe. O longe era também o mais próximo que já estivera dele. Ele se sentara em um banco, sobre o palco de um auditório em São Paulo, e ela era uma entre as quinhentas pessoas que ganharam ingressos para se espalhar pela plateia e assistir a uma apresentação acústica. O mais legal em tudo isso era que eles estavam em turnê de divulgação do novo CD, o que significava que ela e uma das melhores amigas também apaixonadas pela banda puderam escutar, ao vivo, músicas que ninguém ainda conhecia.

Ao que elas saíram do auditório, Beatriz chorava pelas duas. Seus pais as esperavam do lado de fora do prédio de uma das maiores rádios adolescentes da cidade, e elas se despediram com um longo abraço. Ainda não acreditavam no que tinha acontecido. Em nada daquilo. Em como fora bom, em como tinham sorte e em como não parecia completo. Por mais que tivesse sido um dos maiores presentes para aquele início de janeiro, ainda não soava justo.

Quando Bia entrou em um carro para Amparo e Cínthia noutro para São José dos Campos, ela afundou o rosto contra a janela, enquanto tentava empurrar garganta abaixo um dos mini-hambúrgueres que a mãe lhe havia comprado. A voz da faxineira que conheceram no banheiro, e que voltava a ela ainda antes de alcançarem a estrada, fez as primeiras lágrimas escorrerem por suas bochechas, debaixo da franja que tampava metade do seu rosto:

“Vocês vieram pro show? Ah, eles passaram por aqui mais cedo. Meninos bonitos, muito simpáticos. Cumprimentaram todo mundo. A gente nem entendeu nada do que eles disseram.”

Cínthia não conseguia acreditar que até aquela mulher, que nem sabia os nomes deles, os tinha conhecido. E ela, que já estava junto com a banda havia quatro anos, ainda não.

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    Amo textos assim! Já aguardando os próximos!

      Bruna, que bom, fico muito feliz! Entra na página do blog que tem todo o final por lá!
      Beijos!